Autor: Jamilla

  • Trilogia Silo, Ordem e Legado, de Hugh Howey: como manipular e controlar a população

    Trilogia Silo, Ordem e Legado, de Hugh Howey: como manipular e controlar a população

    Li os três livros da trilogia Silo, de Hugh Howey (Silo, Ordem e Legado) em sequência, um atrás do outro, quase sem pausa. Cansativo, mas prazeroso.

    Terminei a leitura com uma sensação estranha, um desconforto pela identificação de padrões, de mecanismos, de coisa que ando vendo no mundo real em várias áreas.

    O que mais me impressionou não foi a precisão com que Howey descreveu o controle da população pela manipulação e omissão da verdade – coisa que a impressa “oficial” faz com a gente o tempo todo. No livro a mentira estrutura o mundo todo. Aqui, no nosso dia a dia, a mídia cria histórias que se tornam a verdade oficial, entram para a história e moldam o nosso imaginário e o nosso comportamento.

    “Talvez o tipo de gente que tenta dar forma ao mundo se ache mais inteligente que o próprio caos” – Hugh Howey, em Legado

    A série da Apple TV, que agora está na metade da 3a temporada, manteve a história contada nas duas primeiras temporadas bem fiel ao primeiro livro. Mas já no final da 2a temporada, Camille, uma personagem que não existe nos livros, ganha muita relevância e, a partir daí, dá outro rumo à história.

    Mas, vale deixar claro que a temática principal do livro, que é o controle pela manipulação e mentira, continua presente na terceira temporada da série também.

    Agora, para o registro das minhas próprias leituras, vou fazer o resumo da história em ordem cronológica dos eventos. E claro, vou colocar também as minhas observações.

    Se você for sensível à spoiler, termine a leitura por aqui. Só volte quando já tiver lido os três livros, que foi recentemente relançado pela Editora Intrínseca.

    Silo (Livro 1): https://link.amazon/B00ZaKuKn

    Ordem (Livro 2): https://link.amazon/B09qrVtEV

    Legado (Livro 3): https://link.amazon/B0irlOeGN

    A história completa da saga Silo em sequência cronológica (contém muito spoiler)

    O Projeto Silo e o fim do mundo (2049 – 2052)

    A conspiração do Senador Paul Thurman

    Em 2049, o influente senador do Partido Democrata norte-americano, Paul Thurman (conhecido nos bastidores após redigir uma polêmica lei anticriogenia que limitava o uso da tecnologia por questões éticas), toma conhecimento de avanços assustadores no desenvolvimento da nanotecnologia biológica global.

    Cientistas de várias nações desenvolveram nanorrobôs invisíveis e autorreplicantes. Embora concebidos para fins medicinais, seu potencial de uso militar como armas microscópicas e indetectáveis de dissolução celular representava uma ameaça iminente de extermínio total da vida no planeta. Essa tecnologia está em poder do Irã, que está em Guerra como os EUA.

    Convencido de que a humanidade caminharia para a autodestruição inevitável assim que essa tecnologia caísse em mãos inimigas, Thurman decide agir de forma totalitária para salvar uma parcela selecionada da humanidade, eliminando o restante.

    Acho muito coerente que o planejador da destruição da humanidade seja um senador democrata. É o perfil de quem se sente à vontade planejando experimentos de engenharia social e influenciando a dinâmica demográfica.

    Os exemplos desse tipo de pensamento resultam em lockdowns e vacinação obrigatória (apesar de o produto ainda ser experimental); financiamento de empresas de checagem de fatos e plataformas para controlar a narrativa; imposição de um estilo de vida dito mais sustentável, como consumir menos carne e abandonar os combustíveis fósseis; e a defesa do aborto como ferramenta de controle populacional, principalmente dos mais pobres, disfarçada de saúde pública, mas com finalidade eugenista.

    O recrutamento de Donald Keene

    Para construir a infraestrutura do projeto sem levantar suspeitas, Thurman usa como pretexto uma lei de armazenamento de resíduos nucleares e emergências, chamada InConDes (Instalações de Contenção e Descarte).

    Sob as colinas do Condado de Fulton, no estado da Geórgia, o senador planeja a construção de 50 cilindros subterrâneos de concreto e aço. Para desenhar a estrutura física, Thurman recruta o jovem deputado e arquiteto de formação Donald Keene. Thurman manipula Donald para que este desenhe o complexo, fazendo-o acreditar tratar-se apenas de um abrigo de emergência e contenção de energia.

    Donald é ex-namorado de Anna Thurman, filha do senador. Anna, uma brilhante engenheira do MIT, fica encarregada do cabeamento físico, das redes de rádio e dos sistemas sem fio que conectam os silos.

    Donald tem uma irmã, Charlotte Keene, que é uma habilidosa piloto militar de drones de combate.

    Aqui, o livro é bem coerente com os dias atuais: uma ameaça, verdadeira ou não, é capaz de autorizar governos a gastarem um orçamento de que não dispõem, entrarem em guerra com nações inimigas ou imporem restrições ou perseguições a cidadãos comuns.

    O apocalipse planejado

    Em 2052, as obras físicas estão concluídas. Sob a fachada da Convenção Nacional Democrata e de um grande exercício nacional de segurança contra armas biológicas na Geórgia, milhares de funcionários públicos, civis selecionados e militares são reunidos na área do complexo subterrâneo.

    Nesse momento, Thurman ativa o plano definitivo: drones e dispositivos emissores liberam nanorrobôs altamente corrosivos e mortais na atmosfera global. A poeira tóxica cinzenta consome todas as coisas compostas de carbono em questão de horas. As portas dos 50 silos são trancadas permanentemente.

    Donald Keene é arrastado para o interior do Silo 1. Ele é separado de sua esposa, Helen Keene, que acaba colocada no Silo 2. No Silo 2, Helen reconstrói sua vida, casa-se com Mick Webb (deputado, melhor amigo de Donald e responsável pela logística das obras) e tem filhos e netos, fato que Donald descobre décadas mais tarde, destruindo seu psicológico.

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    Silo, Ordem, Legado: A Série Completa

    A engrenagem do Silo 1 e os extermínios (2110 – 2312)

    A rotina dos turnos e os medicamentos do esquecimento

    É neste ponto da história que a engenharia social, usando de técnicas de psicologia e psiquiatria, ganha forma e nós vemos a sua aplicação a todos os sobreviventes deste experimento.

    O Silo 1 opera de forma completamente diferente dos outros 49. Seus ocupantes (lideranças, médicos e segurança) não vivem vidas completas lá dentro; eles trabalham em turnos rígidos de 6 meses e retornam ao congelamento criogênico, revezando-se ao longo dos séculos.

    Para evitar revoltas e o sofrimento da lembrança do mundo antigo, um potente coquetel de drogas amnésicas é colocado secretamente na água e administrado em pílulas para manter a equipe apática e obediente.

    Donald Keene, ao acordar no seu primeiro turno sob o codinome de ‘Troy’, descobre-se parcialmente imune ao apagamento da memória devido a receitas médicas antigas (uma medicação que ele tomava no passado sob o nome de sua irmã, Charlotte, o que gerou resistência celular e omitiu os registros de sua ficha médica).

    O objetivo secreto da liderança (definido no Pacto – que era lido e seguido pela população dos 49 silos, e na Ordem – que era o manual de controle da população – de Victor, o psiquiatra do Silo 1 que se suicidaria anos mais tarde) é que, após 500 anos, apenas um único silo, o ‘ovo escolhido’ que se provar mais obediente e estável, seja aberto para repovoar a Terra.

    Os demais 49 silos e o próprio Silo 1 serão destruídos de forma programada com o desabamento das lajes de concreto internas por meio de detonadores.

    A queda do Silo 12

    Em 2110, o Silo 12 entra em colapso devido a uma revolta que tenta forçar a saída para o exterior. Seguindo rigidamente os protocolos de controle previstos na Ordem, Donald, em seu primeiro turno, autoriza o extermínio do Silo 12, liberando o gás mortal.

    Donald redige o relatório técnico daquele massacre sob lágrimas.

    Mais de duzentos anos depois, em 2345, consumido pela culpa ao ver o sistema de controle entrar em colapso com a revolta do Silo 18 (o grande levante, mencionado a diante) e tendo o relatório do Silo 12 sob sua mesa de trabalho com a anotação ‘Esse é o motivo’, o próprio psiquiatra Victor se suicida com um tiro na cabeça. Dois dias depois, Donald é acordado para cuidar da situação.

    O Grande Levante do Silo 18

    Em 2212, durante o segundo turno de Donald, explode uma violenta revolta no Silo 18. A população descobre a manipulação e é incitada pelas histórias proibidas mantidas pela idosa Sra. Crowe (a Corva). O jovem portador Cam é morto nos confrontos internos, mas o protagonista Mission Jones sobrevive à rebelião, vindo a se casar com Allie e reconstruir sua vida.

    O Silo 1, por meio da conversa que Truman tem com o novo indicado chefe da TI, manipula a crise nos bastidores: o jovem Rodny (amigo de Mission) é psicologicamente quebrado e moldado para se tornar o submisso chefe de TI do Silo 18, garantindo a obediência das gerações seguintes e evitando a eliminação de sua estrutura. Para amansar e dominar a população revoltosa, o Silo 1 aplica os medicamentos que apagam as memórias das pessoas.

    “— Não, não conheço nenhum Cam. Só gosto do nome. Ele pegou seu copo de água, examinou-o por algum tempo. Será que conhecia algum Cam? De onde ele conhecia aquele nome? Havia fragmentos ocultos de seu passado, escondidos dele. Havia coisas como a marca em seu pescoço e a cicatriz em sua barriga que ele não se lembrava de como haviam surgido. Era assim com todo mundo, aqueles dias perdidos dos quais não conseguia se lembrar, mas o caso de Mission era bem pior do que o da maioria das pessoas. Seu aniversário, por exemplo. Ele ficava louco por não conseguir lembrar quando era seu aniversário. Por que isso era tão difícil?” – Hugh Howey, em Ordem

    O expurgo do Silo 17

    Em 2312, o Silo 17 passa por uma revolta incontrolável. A TI do Silo 1 corta a energia do local e aciona as tubulações de extermínio como uma medida desesperada para conter o ‘câncer’ de insubordinação espalhado pelo Silo 40.

    O Silo 40 havia hackeado a rede central, desabilitado seus próprios mecanismos de segurança e passado a se comunicar com os silos vizinhos.

    Essa conexão clandestina foi tão profunda que, em meio ao caos da queda, o jovem Jimmy Parker (Solo) chegou a conectar o rádio do Silo 17 diretamente ao terminal do Silo 40, acreditando que estava apenas se comunicando com o quadragésimo andar de seu próprio silo, o que alarmou a central do Silo 1 e selou o destino trágico de sua população.

    No entanto, a eliminação do Silo 17 sofreu a interferência silenciosa de Anna Thurman. Anos antes, ela havia sabotado os códigos do sistema para que, se algum silo fosse desligado, as tubulações liberassem os nanorrobôs de preservação celular (os mesmos usados na criogenia) em vez do gás de dissolução mortal.

    Embora os moradores do Silo 17 tenham morrido devido ao ar tóxico que entrou quando as portas externas se abriram. Os corpos que ficaram perto da saída não se decompuseram, permanecendo bizarramente conservados por décadas.

    Por cerca de 7 anos uma pequena parcela da população lutou pela sobrevivência dentro do Silo. Aos poucos essas pessoas foram morrendo por lutas internas e falta de recurso, restado vivo apenas o jovem Jimmy Parker, que se trancou de forma hermética na sala dos servidores da TI.

    Jimmy passa 33 anos isolado no silo destruído, inundado e às escuras, adotando o nome de Solo. Mais adiante na história, descobrimos que algumas crianças também sobreviveram no Silo, se alimentando do que plantavam no nível das fazenda.

    A sabotagem de Anna e a resistência no Silo 1 (2345)

    Durante o turno de 2212, Anna Thurman foi despertada no Silo 1. Desesperada ao compreender o plano de genocídio premeditado de seu pai (o pacto de suicídio coletivo de 49 silos) e sabendo que seria esquecida na criogenia para sempre, Anna decidiu intervir.

    Ela adulterou os registros do sistema central, substituindo a identidade de Paul Thurman pela de Donald Keene. Isso garantiu que, no turno seguinte, em 2345, o computador acordasse Donald prematuramente na posição do ‘Pastor’ (o líder supremo), para cuidar do caso Juliette, que consegui sobreviver à uma Limpeza e saiu do alcance dos sensores do Silo 18.

    Em 2345,Donald acorda desorientado e assume a identidade do Pastor perante a equipe de segurança do Silo 1. Carregando a mágoa profunda de ter descoberto no turno anterior (em 2212) que sua esposa Helen havia refeito a vida com seu melhor amigo Mick Webb no Silo 2, Donald confronta Anna Thurman, acordando-a de seu pod criogênico apenas para tirar satisfações, e acaba por matá-la na criogenia (administrando uma dose letal de sedativo no pod).

    Em seguida, ele desperta ilegalmente sua irmã, Charlotte Keene. Charlotte, utilizando seus conhecimentos, lança um drone com câmera de longo alcance. Eles fazem uma descoberta monumental: o ar tóxico e corrosivo é gerado artificialmente por torres emissoras locais ao redor do perímetro dos 50 silos. Trata-se de uma barreira deliberada para impedir que as pessoas fujam. Além da cadeia de morros, o planeta está perfeitamente recuperado, verde, com céu azul e ar puro.

    A jornada de Juliette Nichols (2345 – 2346)

    A investigação e a farsa dos trajes

    No Silo 18, a vida segue as leis rígidas do Pacto. Cerca de 150 anos depois de o Grande Levante, que teve Mission Jones como personagem principal, o xerife Holston pede para ir ao exterior para se reunir (morrer) com sua esposa Allison.

    Ele morre na colina, mas deixa pistas sobre a farsa digital do visor do capacete.

    Juliette Nichols, uma obstinada mecânica dos níveis profundos, é nomeada xerife após uma exaustiva viagem da prefeita Jahns e do delegado Marnes até a Mecânica. No caminho de subida, a prefeita Jahns morre envenenada de forma trágica ao beber acidentalmente do cantil de Marnes (que havia sido secretamente envenenado por Bernard Holland). Consumido pela dor, Marnes comete suicídio dias depois, e Bernard assume o poder totalitário do Silo 18.

    Juliette investiga a morte de Holston e de seu amante, George Wilkins (que havia sido jogado de um vão livre pela TI). Ela descobre as falsificações digitais nos servidores e é condenada à limpeza por Bernard. Contudo, seu mentor, o eletricista Walker (que na série é uma mulher!), descobre que a TI usa deliberadamente fita adesiva de péssima qualidade nas juntas dos trajes para que se deteriorem rapidamente na poeira corrosiva. Walker manipula o Suprimentos e substitui a fita do traje de Juliette por fita térmica de alta resistência da Mecânica.

    Ao ser exilada, Juliette sobrevive ao exterior, recusa-se a limpar os sensores do Silo 18, cruza as colinas e entra na câmara de pressurização do vizinho Silo 17. Esse fato inédito gera perplexidade nas pessoas e resulta em uma revolta popular interna que provoca dias de conflito armados e muitas mortes, inclusive com o envio de Bernard para Limpeza. Neste exato momento, dias depois de ter ficado no Silo 17, Juliette retorna para o Silo 18, sofre graves queimaduras na sala de descompressão e, posteriormente, por aclamação, se torna a nova prefeita.

    A escavação e a guerra civil

    No Silo 17, Juliette encontra Solo (Jimmy Parker) e crianças sobreviventes. Ela restabelece a energia do gerador que realiza a retirada da água que inunda o silo e entra em contato com Lukas Kyle (sombra na TI do Silo 18, e seu namorado) por rádio.

    Juliette descobre a existência da colossal máquina de escavar soterrada sob as profundezas da Mecânica. Ela retorna ao Silo 18 e reassume temporariamente a autoridade como prefeita, enquanto Bernard morre queimado na câmara de pressurização ao ser enviado para a limpeza pela nova liderança de Billings e Lukas.

    Sob a coordenação de Juliette, e a contragosto de muitas pessoas, a Mecânica inicia uma escavação física (às escondidas do Silo 1) para o Silo 17, perfurando o concreto externo com a máquina de cavar original para ligar fisicamente os dois silos e resgatar Solo e as crianças sobreviventes.

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    Silo, Ordem, Legado: A Série Completa

    O fim do Silo 1 e o recomeço em ‘Semente’ (2346)

    A purga do Silo 18 e o sacrifício de Shirly

    No Silo 1, o senador Paul Thurman é despertado de sua cápsula criogênica por sua equipe de segurança após descobrirem que Donald Keene havia usurpado sua identidade como ‘Pastor’.

    Ao investigar as comunicações, Thurman descobre a contaminação ideológica das conversas de rádio de Donald com Lukas Kyle e Juliette Nichols no Silo 18.

    Thurman assume as operações, contata Lukas pelo rádio para confrontá-lo e ordena a destruição imediata do Silo 18 por meio do acionamento do gás letal. O gás corrosivo é liberado no Silo 18, espalhando-se rapidamente. A fumaça tóxica asfixia Lukas Kyle na sala dos servidores.

    Juliette consegue conduzir um grupo de sobreviventes em fuga pelo túnel recém-escavado na direção do Silo 17. Para impedir que o gás alcance os fugitivos, sua leal amiga e chefe da Mecânica, Shirly, nocauteia Juliette, assume a sala de controle da escavadeira e detona os explosivos que colapsam o túnel permanentemente, morrendo na explosão, mas salvando seu povo no Silo 17.

    O fim do Silo 1

    Donald Keene, percebendo o fanatismo genocida de Thurman e sabendo que o complexo inteiro é um pacto de suicídio coletivo onde todos os silos estão programados para o extermínio, decide agir.

    Donald já havia anteriormente atirado no senador com uma pistola dentro do próprio pod criogênico, mas a equipe de segurança do Silo 1 descobriu que os avançados nanorrobôs médicos de Thurman o mantiveram vivo, reanimando-o.

    Com a ajuda do guarda Darcy (que se sacrifica e morre baleado), Donald ajuda Charlotte a escapar pelo elevador de lançamento de drones usando um traje de oxigênio de longo alcance.

    Encurralado e baleado no nível do reator pelas forças de segurança de Thurman, Donald usa suas últimas forças para apontar sua pistola e atirar diretamente contra uma bomba de demolição perto do reator. O disparo provoca uma explosão física violenta que colapsa toda a estrutura do Silo 1, destruindo a central tirânica, encerrando o sistema centralizado de extermínio e matando Thurman definitivamente.

    Charlotte alcança o exterior e caminha sozinha pela superfície contaminada em direção à Semente.

    A chegada à ‘Semente’ (Seeds)

    No Silo 17, diante da escassez crítica de recursos, Juliette Nichols lidera os sobreviventes restantes dos Silos 17 e 18 em um êxodo final e desesperado pela superfície.

    Guiados pelos cálculos matemáticos de Juliette, que cruzou as trajetórias das máquinas de escavar e estimou o limite de combustível delas, os sobreviventes marcham em trajes de oxigênio adaptados com fitas térmicas de alta resistência da Mecânica.

    O grupo atravessa a barreira de poeira tóxica mantida localmente pelas torres de controle do Silo 1 e alcança o topo de uma colina circular. Diante deles, a névoa tóxica desaparece por completo, revelando um vasto gramado verde, árvores reais, ar puro e um céu azul.

    Eles chegam à instalação ‘Semente’ no Condado de Fulton, Geórgia, onde depois chega Charlotte Keene.

    Juntos, Juliette, Charlotte, Solo (Jimmy Parker), o dr. Nichols, o eletricista Walker e as crianças iniciam o primeiro assentamento humano livre, encerrando o ciclo de confinamento e mentiras subterrâneas.

  • Tudo sobre o caso da pesca ilegal de Jair Bolsonaro

    Tudo sobre o caso da pesca ilegal de Jair Bolsonaro

    Em 25 de janeiro de 2012, um pequeno bote inflável ancorado junto ao costão rochoso da Ilha de Samambaia, na Baía da Ilha Grande, em Angra dos Reis (RJ), tornou-se o ponto de partida de um dos primeiros episódios de grande repercussão pública na trajetória política de Jair Messias Bolsonaro.

    O então deputado federal estava na área quando fiscais do Ibama, em operação de combate à pesca ilegal conhecida como “Operação Mero”, o abordaram.

    A Ilha de Samambaia integra a porção marítima da Estação Ecológica de Tamoios, Unidade de Conservação de proteção integral criada pelo Decreto nº 98.864/1990. Nesse tipo de unidade, a legislação proíbe a presença humana sem autorização e qualquer atividade de pesca.

    Os fiscais registraram que Bolsonaro estava com uma vara de pesca, mas que não houve apreensão de nenhum peixe ou pescado no momento da abordagem.

    Processo Bolsonaro Pesca Ilegal Angra dos Reis

    O analista ambiental José Olímpio Augusto Morelli fotografou a cena. Segundo o Relatório de Fiscalização produzido pelos agentes, os três ocupantes da embarcação foram instruídos a se retirar do local por se tratar de área proibida à pesca e à ancoragem. O parlamentar se recusou a apresentar documentos pessoais e ligou para o então ministro da Pesca, Luiz Sérgio de Oliveira, do PT-RJ.

    O flagrante e a orientação para saída do local ocorreram em 25 de janeiro de 2012. A formalização administrativa do Auto de Infração nº 363409-D (pág. 001), com a aplicação da multa de R$ 10 mil, só aconteceu 41 dias depois, em 6 de março de 2012.

    A reação política e a lavratura do auto

    Em 14 de fevereiro de 2012, ainda antes da lavratura do auto de infração, Bolsonaro subiu à tribuna da Câmara dos Deputados para tratar da abordagem.

    No discurso, criticou a atuação do Ibama na região, citou nominalmente o fiscal José Olímpio Augusto Morelli, afirmou que a abordagem o tratara “como se fôssemos cachorros” e defendeu a pesca artesanal na região. Ele também declarou que voltaria a pescar no local no carnaval e que “o bicho ia pegar”. O pronunciamento está registrado no Diário da Câmara dos Deputados daquela data.

    Somente em 6 de março de 2012, depois do pronunciamento, o Ibama lavrou o Auto de Infração nº 363409-D (pág. 001), aplicando multa de R$ 10 mil pela conduta de “causar dano direto à unidade de conservação federal” e pescar em local proibido. O processo administrativo recebeu o número 02022.000630/2012-01. Na mesma época, o órgão encaminhou comunicação de crime ao Ministério Público Federal.

    A defesa de Bolsonaro, anos depois, usaria a data da lavratura do auto (6 de março) para apresentar um cartão de embarque às 13h07 no Aeroporto Santos Dumont com destino a Brasília. O argumento era de impossibilidade física de estar em Angra às 11h daquele dia. Os documentos da fiscalização, no entanto, apontavam que o flagrante e o registro fotográfico haviam ocorrido em 25 de janeiro.

    Dois caminhos paralelos: o criminal e o administrativo

    A partir daí, o caso seguiu dois caminhos distintos e independentes.

    No âmbito criminal, o Ministério Público Federal ofereceu denúncia no Supremo Tribunal Federal (Inquérito 3.788-DF). A acusação se baseou no artigo 34 da Lei nº 9.605/1998 (pescar em local interditado). O próprio MPF não sustentou a tipificação do artigo 40 (dano a unidade de conservação), reconhecendo a dificuldade de comprovar materialidade de dano concreto, já que nenhum peixe fora apreendido.

    Em 14 de março de 2013, a ministra Cármen Lúcia determinou o desmembramento do processo para que os outros dois ocupantes do bote respondessem na Justiça Federal de primeira instância. O caso de Bolsonaro permaneceu no STF por força do foro parlamentar.

    No âmbito administrativo, o Ibama manteve a multa em julho de 2013. A defesa recorreu (págs. 127 a 157). Em outubro daquele ano, a Superintendência do Rio de Janeiro negou seguimento ao recurso (pág. 179). Em 2015, o débito foi inscrito em dívida ativa (pág. 300) e o nome de Bolsonaro incluído no Cadastro Informativo de Créditos não Quitados do Setor Público Federal – CADIN.

    A absolvição criminal no STF (2016)

    Em 1º de março de 2016, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, sob relatoria da ministra Cármen Lúcia, rejeitou a denúncia por unanimidade e julgou a acusação improcedente.

    O acórdão não afirmou que a conduta era permitida. A Corte concluiu pela ausência de justa causa para a ação penal, aplicando o princípio da insignificância. Os ministros destacaram a mínima ofensividade da conduta, o reduzido grau de reprovabilidade e a inexpressividade da lesão jurídica: tratava-se de pesca rústica, com vara, linha e anzol, em pequena embarcação, sem apreensão de qualquer pescado e sem demonstração de dano relevante ao bem jurídico protegido.

    O processo criminal foi definitivamente arquivado.

    A anulação da multa e a tese de prescrição (2018-2019)

    Em dezembro de 2018, próximo ao fim do governo Temer, a Advocacia-Geral da União apontou nulidades nas decisões administrativas de primeira e segunda instâncias, por ausência de adequada análise dos argumentos da defesa. A AGU recomendou o refazimento do julgamento.

    A Superintendência do Ibama no Rio de Janeiro, contudo, adotou um caminho diferente. Em 20 de dezembro de 2018, anulou a multa e reconheceu a prescrição. Em junho de 2019, a Decisão nº 5373688/2019 (mencionada na pág. 002, 006 e 008, do Agravo e Instrumento) formalizou a extinção da punibilidade com base no prazo geral de cinco anos da Lei nº 9.873/1999. O processo foi arquivado em dezembro de 2019.

    A reabertura em 2023 e a disputa dos prazos

    Em 17 de setembro de 2023, no governo Lula, o Coordenador-Geral do Centro Nacional do Processo Sancionador Ambiental do Ibama, Halisson Peixoto Barreto, assinou o Despacho nº 16966737/2023-Cenpsa determinando a reabertura do processo.

    O argumento central foi o artigo 1º, § 2º, da Lei nº 9.873/1999: quando o fato objeto da ação punitiva administrativa também constituir crime, a prescrição segue o prazo da lei penal.

    O Ibama sustentou que a conduta se amoldava ao artigo 40 da Lei de Crimes Ambientais (dano a unidade de conservação), cuja pena máxima de cinco anos gera prescrição de 12 anos (artigo 109, III, do Código Penal). Com isso, o prazo se estenderia até janeiro de 2024, permitindo a correção dos vícios formais apontados em 2018.

    A defesa e o próprio parecer técnico do Ibama de 2019 haviam concluído o oposto: a conduta não se enquadrava no artigo 40 (ausência de dano efetivo), mas em infração de menor gravidade relacionada à pesca rústica, seguindo o resultado do julgamento do STF ocorrido em 2016. Sem crime correspondente, aplicava-se o prazo administrativo ordinário de cinco anos, já esgotado em 2018.

    A decisão do TRF-1 em 2024

    A defesa de Bolsonaro ajuizou ação e, em agravo de instrumento (1013485-45.2024.4.01.0000), pediu a suspensão do auto e do processo administrativo. Em 25 de abril de 2024, o desembargador federal Rafael Paulo Soares Pinto, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, concedeu liminar.

    O magistrado fundamentou que, uma vez que o STF já havia reconhecido de forma definitiva a atipicidade material e a insignificância da conduta, a Administração não poderia invocar o prazo prescricional penal de 12 anos. Incidia, portanto, o prazo de cinco anos. Além disso, reconheceu a ocorrência de prescrição intercorrente (artigo 1º, § 1º, da Lei 9.873/1999), pois o processo ficou paralisado por mais de três anos em períodos distintos, sem atos inequívocos de apuração.

    A liminar suspendeu os efeitos do Auto de Infração nº 363409-D e o curso do processo administrativo 02022.000630/2012-01. Até meados de 2026, não havia decisão definitiva de mérito revogando a suspensão.

    Outros desdobramentos

    O fiscal José Olímpio Augusto Morelli

    Em março de 2019, já sob a presidência de Bolsonaro, José Olímpio Augusto Morelli foi exonerado do cargo de confiança que ocupava no Ibama (chefe do Centro de Operações Aéreas). Críticos apontaram possível retaliação; o governo não reconheceu essa interpretação.

    Três anos depois, em 2022, Morelli solicitou desincompatibilização do Ibama para concorrer a deputado distrital no Distrito Federal pelo partido Rede Sustentabilidade. Ele se filiou à legenda naquele mesmo ano para disputar as eleições, após convite de Marina Silva, mas não foi eleito.

    A procuradora Monique Cheker Mendes

    Em janeiro de 2022, em entrevista à Jovem Pan (entre os minutos 1:38:23 – 1:40:17), Bolsonaro afirmou que a procuradora Monique Cheker Mendes teria tentado fraudar provas no caso da pesca. Segundo ele, ela teria buscado um laudo técnico de um professor da UERJ para sustentar a acusação de crime ambiental, mesmo diante da discrepância de data e horário entre o auto de infração e sua presença em Brasília. Ela ajuizou queixa-crime por calúnia (Petição 10.476).

    Em março de 2023, a ministra Cármen Lúcia declinou da competência do STF e remeteu o caso à Justiça Federal do Distrito Federal. Em 2025, o Supremo alterou sua jurisprudência sobre o alcance do foro por prerrogativa de função. Em abril de 2026, a 1ª Turma, por unanimidade, reassumiu a competência. As partes foram intimadas para conciliação: a defesa de Bolsonaro recusou; a querelante aceitou com condições. O processo permanece em tramitação no STF, sem decisão de mérito.

    Situação atual (meados de 2026)

    • Esfera criminal (pesca): Encerrada definitivamente. Absolvição pelo STF em 1º de março de 2016, com aplicação do princípio da insignificância. Não há possibilidade de reabertura.
    • Esfera administrativa (multa de R$ 10 mil): Suspensa por decisão liminar do TRF-1 de 25 de abril de 2024. O Auto de Infração nº 363409-D e o processo 02022.000630/2012-01 não produzem efeitos enquanto a liminar estiver vigente. Não há, até o momento, julgamento definitivo de mérito.
    • Queixa-crime por calúnia (Pet 10.476): Em tramitação na 1ª Turma do STF, após retomada da competência em 2026. Sem decisão de mérito.

    O caso permanece como exemplo da complexa relação entre o direito penal e o direito administrativo sancionador no Brasil. A existência ou não de crime, reconhecida de forma soberana pelo STF, influenciou diretamente a discussão sobre o prazo de prescrição da multa administrativa, e, até agora, a última palavra judicial sobre a cobrança continua suspensa.

  • Por que questionar virou crime?

    Por que questionar virou crime?

    Imagine uma cidade pequena onde todo mundo sabe que algo terrível vai acontecer.

    Uma mulher pronuncia um nome e acusa um homem: Santiago Nasar.

    Não tem testemunhas. Não tem provas concretas que linguem esse rapaz ao fato de ela não ser mais virgem.

    Mas a cidade aceita. Porque na cabeça das pessoas vítima não mente.

    Porque duvidar seria cruel.

    E, no final, um homem é morto em praça pública.

    Essa é a essência do livro “Crônica de Uma Morte Anunciada”, de Gabriel García Márquez, publicado em 1981.

    Não é só um livro sobre honra e vingança, é também sobre como a narrativa da vítima pode se sobrepor à verdade estabelecida pela biologia e pela lógica.

    E quando isso acontece, a justiça vira espetáculo e manipulam a sociedade a aceitar o que ela não vê como verdade.

    No romance, Angela Vicário é devolvida na noite de núpcias pelo marido por não ser mais virgem.

    Ela aponta Santiago Nasar como o responsável pela sua desonra.

    Não há exame médico imediato. Não há confronto direto com o acusado.

    A sua mãe e cidade simplesmente acreditam na versão dela.

    Porque questionar a vítima seria desonrar a família inteira.

    Os irmãos Vicário, pressionados pela honra coletiva, vão atrás de Santiago para matá-lo de limpar a honra da família.

    Eles hesitam, anunciam o crime para todo mundo que passa.

    Mas ninguém intervém de verdade.

    A suposta vítima ganha poder absoluto: o poder de definir quem é culpado sem precisar provar.

    E a sociedade inteira consente com a versão da história e com o crime ao aceitar apenas a palavra da vítima ao não exigir prova.

    Agora, pense nisso acontecendo no Brasil nos dias de hoje.

    No dia 11 de março de 2026, a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) foi eleita presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados, a primeira pessoa trans a ocupar o cargo, em uma votação apertada que terminou 11 a 10 em branco após debate acalorado.

    Obviamente, críticas surgiram imediatamente, inclusive no programa do apresentador Ratinho, no SBT, um dos programas mais populares do Brasil.

    Ratinho questionou: como alguém nascido biologicamente homem pode presidir uma comissão dedicada às mulheres?

    Em essência, disse que o cargo deveria ser ocupado por uma mulher com base em critérios biológicos tradicionais, mencionando útero e menstruação.

    Em resposta, o deputado trans se posicionou-se como vítima de transfobia.

    Protocolou representação no Ministério Público de São Paulo pedindo investigação criminal e a prisão do apresentador.

    E acionou também o Ministério Público Federal.

    Dois dias depois, em 13 de março, o MPF entrou com ação civil pública contra o apresentador Ratinho e o SBT, pedindo R$ 10 milhões em danos morais coletivos à população trans e travesti, a retirada do trecho do programa das plataformas e a retratação pública do apresentador.

    Fazendo um paralelo com o livro Crônica de Uma Morte Anunciada: Se alguém questionar a narrativa se transforma em um agressor da vítima.

    Na história da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, o Estado foi acionado para proteger a versão apresentada, antes de qualquer debate aprofundado sobre os fatos ou o propósito original da própria Comissão.

    Vamos ampliar o olhar para o plano institucional.

    A Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher existe para combater feminicídios, estupro, desigualdade salarial, violência doméstica, vulnerabilidades concretas enfrentadas por mulheres biológicas.

    É uma instituição criada com base em diferenças biológicas reais e em estatísticas de violência que não mentem.

    Quando o critério do que é ser uma mulher é flexibilizado e passa a ser de identidade sentida, sem discussão aberta e ampla, a finalidade original da comissão é totalmente deturpada, pois um homem biológico passa a presidir as vontades da mulheres.

    E quando críticas legítimas viram processos judiciais milionários, o instrumento estatal que deveria proteger vira ferramenta de silenciamento da verdade óbvia.

    Não é sobre negar direitos a ninguém.

    É sobre perguntar com clareza: quem essa comissão protege de fato?

    As mulheres que mais sofrem violência no dia a dia ou à narrativa de gênero?

    Agora, no plano cultural.

    Nos anos 80 e 90, o Brasil já convivia com figuras como Roberta Close, Rogéria e Nani People.

    Elas eram celebradas: desfilavam no carnaval, apareciam na TV, eram respeitadas como pessoas.

    E ninguém precisava redefinir biologicamente o que é mulher para aceitá-las e admirá-las.

    A sociedade distinguia perfeitamente: aceitação humana, sem apagamento da diferença biológica.

    Hoje, a exigência mudou.

    Não basta respeitar a pessoa.

    É preciso concordar com a reescrita da realidade.

    E discordar, mesmo com argumentos racionais e baseados em critérios biológicos tradicionais,pode ser enquadrado como crime de transfobia.

    Desde junho de 2019, o Supremo Tribunal Federal decidiu, por maioria, que condutas homofóbicas e transfóbicas se enquadram na Lei do Racismo (Lei nº 7.716/1989). Enquanto o Congresso não edita lei específica sobre o tema, essa equiparação permanece em vigor e amplia o alcance penal para manifestações que sejam interpretadas como discriminatórias, transformando questionamentos públicos em potencial objeto de ação judicial.

    Da forma com a jurisprudência está posta, quem se apresenta como vítima ganha poder para oprimir a lógica e a biologia.

    Quem questiona vira o vilão, e o debate racional some do mapa.

    É o vitimismo oportunista em ação: quando a narrativa da suposta vítima é questionada; ela dita os termos, redireciona a discussão e cala vozes discordantes.

    Quando a narrativa de vítima substitui a realidade, a proteção real desaparece.

    A justiça vira arma. E nesse caso, a Comissão dos Direitos da Mulher vira palco para a discussão de pauta trans.

    E a sociedade perde a capacidade de debater.

    A visão conservadora surge aqui não como imposição, mas como consequência inevitável desse percurso:

    Defender a verdade biológica, o mérito individual e a responsabilidade mútua é o que protege de fato as mulheres.

    Sem precisar calar quem pensa diferente.

    Porque honra verdadeira não se restaura com indenizações milionárias.

    Alguém pode dizer: “Isso é transfobia disfarçada. Você está excluindo pessoas trans.”

    Não. Aceitação plena não exige redefinição da realidade. Mulher é mulher.

    Roberta Close nunca precisou que o Brasil apagasse a diferença biológica entre homem e mulher.

    O que está em jogo é o direito de questionar políticas públicas sem virar alvo do judiciário, apenas por dizer o óbvio.

    Uma coisa protege a pessoa trans como ser humano digno de respeito.

    A outra fragiliza a proteção às mulheres que a comissão foi criada para defender em primeiro lugar.

    Pense nisso.

    Leia ou releia “Crônica de Uma Morte Anunciada”, confira o livro neste link.

    Não para julgar Angela Vicário.

    Mas para reconhecer o processo de criação de narrativa que está operando hoje no Brasil e em grande parte do mundo onde a cultura woke atua.

    Se você acredita que a verdade deve vir antes da narrativa, compartilhe esse podcast com alguém que ainda está indeciso entre aceitar sem questionar e debater com honestidade.

    E até a próxima reflexão.

  • A triste história da narrativa que virou sentença

    A triste história da narrativa que virou sentença

    Imagine você acordando num dia qualquer… o sol entrando pela janela, o cheiro do café na cozinha… e a cidade inteira já sabendo que você vai morrer antes do meio-dia.

    Você sai para a rua, conversa com muitas pessoas, mas ninguém te avisa sobre o seu destino eminente. Alguns avisos chegam tortos, outros nem chegam. E você segue a sua rotina normal.

    É exatamente isso que acontece com o personagem Santiago Nasar no livro “Crônica de Uma Morte Anunciada”, publicado em 1981, pelo escritor colombiano Garcia Marques.

    No livro, anos depois do assassinato mencionado no título, o narrador, que era amigo da vítima, volta pra cidadezinha onde ocorreu o crime e tenta montar a sequência dos fatos do dia da tragédia.

    Todo mundo da cidade se recorda de um pedaço diferente da história. Mas no geral, as lembranças das pessoas não batem umas com as das outras. Os detalhes somem.

    No meio desse emaranhado de lembranças incompletas, existe apenas um ponto (um ponto!) que ficou claro para todo mundo.

    Pressionada pela mãe e pelos irmãos, e sob o peso da honra da família, Ângela Vicário pronunciou um nome: Santiago Nasar. É essa acusação que transforma um boato confuso no motivo oficial do crime.

    Talvez ele nem tivesse culpa. Mas o nome foi dito. E isso bastou.

    Ela disse o nome dele como quem joga uma pedra no poço.

    Ninguém soube nunca se era verdade ou se era só o que precisavam ouvir pra acabar logo com o assunto.

    A história de Santiago Nasar não é apenas um episódio literário sobre honra e vingança. Ela mostra como uma comunidade pode aceitar uma narrativa incompleta, repetir versões contraditórias e, no fim, transformar suspeita em certeza coletiva.

    O curioso é que esse mecanismo não ficou preso às páginas do livro.

    Histórias literárias frequentemente funcionam como lentes para observar comportamentos humanos recorrentes. E é justamente esse tipo de mecanismo que reaparece em muitos episódios da história real.

    O que a história do livro “Crônica de Uma Morte Anunciada” mostra é algo perturbador. Embora seja uma obra de ficção, o mecanismo retratado por García Márquez mostra um fenômeno bem documentado na psicologia social: quando uma narrativa se instala numa comunidade, as lembranças e interpretações dos fatos tendem a se reorganizar ao redor dela..

    E quando isso acontece, o que vem depois não é uma busca pela verdade, mas sim a consolidação de uma versão da história.

    Trazendo este ponto da história para a nossa realidade, percebemos que anos depois de um acontecimento que sacudiu o Brasil, a gente também está tentando montar uma história. A história do 8 de janeiro de 2023.

    A narrativa que se instalou rápido na mídia tradicional foi a de um golpe de Estado orquestrado, com milhares de pessoas agindo em uníssono para derrubar o governo democraticamente eleito.

    Mas, quando a gente para e examina com calma, como o narrador do livro faz com as histórias que as pessoas contam, as peças não se encaixam.

    As investigações, por exemplo, não revelaram o uso de armas de fogo pelos manifestantes nos prédios invadidos, algo que seria esperado em um golpe armado real, com intenção de violência letal contra autoridades. Em vez disso, o que se viu foi vandalismo descontrolado, como quebra de vidraças e móveis, mas sem evidências de um arsenal organizado para tomar o poder à força.

    Vídeos e imagens que poderiam esclarecer o que aconteceu dentro dos edifícios públicos simplesmente sumiram, com explicações oficiais apontando para falhas contratuais em sistemas de monitoramento.

    Enquanto isso, registros que circularam nas redes sociais capturaram cenas estranhas: pessoas já posicionadas nos interiores dos prédios antes da chegada da multidão, outras de servidores públicos distribuindo água ou facilitando acessos aos manifestantes, viatura da polícia legislativa caindo no espelho d’água sozinha e até indivíduos descendo de rapel dos prédios enquanto os manifestantes ainda se aproximavam da Praça dos Três Poderes.

    Esses detalhes, como as lembranças contraditórias dos personagens do livro, criaram furos na versão da imprensa, do governo e na versão oficializada nos acórdãos do julgamento.

    No caso do livro, a cidade inteira “sabia” quem eram os culpados, os irmãos da moça deflorada. Mas quanto mais o narrador investigava, menos o quebra-cabeça fechava: memórias contraditórias, detalhes que somem, acusação que nasce sob pressão familiar e vira verdade coletiva sem verificação rigorosa.

    Aqui está o paralelo que fica evidente: também no 8 de janeiro, a narrativa de golpe se instalou rápido, mas os fatos observados resistem a ela.

    O ministro Luiz Fux, em seu voto no STF, destacou exatamente isso ao analisar casos relacionados aos eventos.

    Ele apontou a ausência de provas concretas que ligassem indivíduos a uma ação coordenada para abolir o Estado Democrático de Direito de forma violenta, como por exemplo a falta de elementos mostrando que réus específicos detinham domínio sobre os atos ou iniciaram a execução de um plano golpista.

    Ele aponta outro caso, em reuniões citadas nas denúncias, não houve demonstração de que participantes, como comandantes militares ou assessores, deram passos efetivos para depor o governo, como mobilizar tropas ou assinar decretos de ruptura institucional. Em vez disso, discussões ficaram no campo de ideias ou frustrações eleitorais, sem transição para atos preparatórios puníveis criminalmente.

    Fux também, durante o julgamento, enfatizou a falta de coordenação e liderança clara nos eventos, notando que os atos pareciam mais reflexos de insatisfação coletiva do que de uma operação estruturada com hierarquia definida.

    Ele observou, por instância, que acusados como o ex-ajudante de ordens ou o ex-ministro da Defesa não exerceram controle sobre manifestantes nos acampamentos ou nos prédios invadidos, e que alegações de “liderança intelectual” não se sustentavam sem evidências de incitação direta à violência.

    Além disso, Fux questionou a proporcionalidade das acusações, argumentando que punir discursos isolados ou presenças em reuniões como crimes graves contra o Estado, sem prova de intenção imediata de derrubar instituições, viola princípios de razoabilidade.

    Em vários casos, como os do almirante ou do ex-diretor da agência de inteligência, Fux votou pela absolvição porque as provas não comprovavam participação em uma organização criminosa armada, e as condutas não configuravam o início de um golpe, mas sim atos isolados ou omissões sem dever específico de agir para impedir danos.

    No julgamento, o ministro Fux chegou a reavaliar suas posições anteriores, reconhecendo que julgamentos feitos sob pressão urgente, logo após os fatos, podem levar a injustiças ao priorizar narrativas coletivas sobre análises individualizadas.

    Aqui ele dá outro exemplo. Minuta de decreto encontrada em residências ou mensagens em grupos de WhatsApp foram vistas por ele como insuficientes para enquadrar em tentativa de golpe, já que não houve execução ou adesão efetiva.

    E, em relação aos danos patrimoniais, Fux destacou que não se pode atribuir responsabilidade solidária por todos os estragos do dia a indivíduos sem prova de que eles destruíram bens específicos, como itens tombados no Planalto ou no Congresso, reforçando a necessidade de ligação direta entre conduta e resultado.

    Apesar da ausência de provas em várias situação, no final do julgamento, Fux foi voto vencido, e os acusados foram condenados e hoje cumprem pena.

    Mas aqui está o ponto que ninguém quer falar em voz alta…

    Quando uma acusação nasce de pressão, seja familiar como no caso do livro “Crônica de Uma Morte Anunciada”, ou d pressão midiática ou institucional, e quando a memória coletiva ou o conjunto provas estão cheios de contradições, eles viram ferramentas perfeitas para eliminar adversários.

    Não precisa de prova cabal e individualizada.

    Basta repetir a versão até ela virar verdade oficial. Prisões em massa, tornozeleiras, cassações, silenciamento.

    Tudo justificado por uma narrativa que… não fecha completamente.

    Quando a narrativa importa mais que a prova individualizada, qualquer um pode virar Santiago Nasar.

    Apagar imagens não apaga a dúvida, só a alimenta.

    O pior não é o vandalismo em si (que deve ser punido, com o devido processo e depois de devidamente provado). O pior é transformar cidadãos comuns em inimigos do Estado com base em uma construção que prioriza a versão coletiva sobre os fatos verificáveis.

    E é por isso que, no final das contas, o que o livro de García Márquez e o 8 de janeiro mostram é exatamente a mesma coisa: quando o poder, ou uma coalizão de poderes, fabrica ou consolida narrativas para neutralizar o adversário político, a verdade é a primeira vítima… e depois vêm as liberdades individuais.

    Só a busca implacável pelos fatos reais, sem pressão externa, sem edição seletiva, sem apagão de evidências, protege a todos nós.

    Porque hoje são eles. Amanhã pode ser qualquer um de nós.

    Agora, sei que alguém vai dizer: “Você tá relativizando vandalismo e defendendo golpista”. Não. Vandalismo tem que ser punido, sim. Com provas concretas, individualizadas e atendendo à proporcionalidade.

    O que eu questiono é transformar um quebra-quebra num “golpe armado” sem armas, com apagamento de imagens e uso de acusações amplas pra atingir milhares.

    Justiça de verdade não precisa de narrativa conveniente para se sustentar — ela se sustenta nos fatos.

    Santiago morreu porque a cidade precisava de um culpado. Não podemos deixar que esse tipo de erro se repita e permaneça, como está acontecendo agora.

    E aí, qual história oficial você acha que tá sendo escrita hoje e não corresponde aos fatos? Comenta aqui embaixo, quero saber a sua opinião.

    Se esse paralelo fez você refletir, não deixe de ler o livro “Crônica de Uma Morte Anunciada”, o link na descrição. Vale cada página.

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  • O jeito de falar muda tudo

    O jeito de falar muda tudo

    Meu marido tem um raciocínio afiado e um controle emocional invejável.

    Quem tem criança pequena em casa sabe que essas habilidades são fundamentais para manter a paz e a harmonia.

    Ele tem a capacidade de desviar de questionamentos inesperados e surpreendentes e de dar respostas diretas e suficientes, que matam a dúvida do meu filho sem criar outras perguntas desnecessárias e constrangedoras. É uma habilidade e tanto! Se você é pai ou mãe, sabe do que estou falando.

    Eu, por outro lado, sou desprovida desse talento. Mantenho o diálogo e a argumentação até o limite da minha paciência, que varia conforme o dia. Um recurso que uso com mais frequência do que gostaria é colocá-lo de castigo no quarto, sentado na poltrona de amamentação, por 10 minutos (para começar!), quando ele insiste em me desobedecer ou fica me desafiando.

    Vou contar uma história…

    No último fim de semana, eu, meu marido e meu filho fomos almoçar fora. Meu filho não gosta de sair de casa e, quando sai, quer voltar rápido.

    Nesse dia, depois do almoço, precisávamos passar rapidamente em uma padaria para adiantar o lanche da tarde, o que o irritou. Ele começou a reclamar: que queria voltar para casa, que estava cansado, que queria ficar em casa brincando com os cachorros… uma chateação.

    Eu não falei nada; estava sem paciência alguma.

    Mas meu marido começou a conversar com ele, explicou o porquê de passarmos na padaria e tudo o mais. Mesmo assim, meu filho não parou de argumentar contra a ida à padaria. Até que meu marido começou a preparar a contra-argumentação:

    — Meu filho, pare com isso, senão vou te colocar de castigo.

    — Não, pai. Castigo não. Eu quero voltar para casa, estou cansado.

    — Oh! Meu filho, te entendo. Se você está cansado, então vou te colocar de repouso.

    — O que é repouso, pai?

    — Repouso é descansar. Quando a gente chegar em casa, vou te colocar no seu quarto, sentado na poltrona de amamentação, por 10 minutos, até você estar recuperado desse cansaço todo.

    — Ah, tá! Obrigado, pai.

    Abordagem é tudo!